MATÉRIA CORREIO

Colocar uma bicicleta speed na terra parece loucura. O pneu finíssimo, feito para rodar no asfalto, não suportaria a brutalidade do terreno irregular, cheio de pedras, lama e areia. Mas os brasilienses começam a ver leves bikes circulando nas trilhas da cidade. Trata-se do cyclocross, uma modalidade que requer bicicleta de peso reduzido, semelhante às usadas no asfalto, mas com adaptações que a deixam na medida para o cross country.

É um meio-termo entre a bicicleta do ciclismo de estrada e a mountain bike. Com apenas 6kg, a cyclocross é capaz de atingir altas velocidades na terra. O modelo foi criado na Europa como alternativa para o inverno — já que as mountain bikes não se comportavam bem no gelo — e logo se tornou uma modalidade. Nas competições, os ciclistas precisam cumprir circuitos rústicos, com obstáculos planejados, como uma escadaria ou barreiras de feno. As provas geralmente são feitas em terreno mais planos, com subidas curtas e muitas curvas.

O pneu fino — que varia de 38 a 45 milímetros — e o guidão baixo, com cinco pegadas diferentes, são semelhantes ao da magrela usada em provas de estrada, como a Volta da França, em que os principais atletas do mundo cruzam o tapete asfáltico francês. Mas o pneu com travas revela logo que a bike foi criada para a terra ou, na maioria dos casos, para a lama. Nas provas, os atletas terminam irreconhecíveis, sujos da cabeça aos pés.

Atual campeão pan-americano de mountain bike na categoria sub-40, o ciclista Marconi Ribeiro é usuário assíduo da bicicleta de cyclocross. “Conheci a bike assistindo a provas na Europa e nos Estados Unidos. É muito divertido pedalar com ela, porque é bem rápida e dá uma adrenalina a mais”, conta o atleta, ao destacar que a modalidade ainda é recém-chegada ao Brasil, onde as provas ainda são escassas. “Nunca fiz uma competição, mas a bicicleta me ajuda muito no treino para mountain bike, porque ela é mais ágil e exige muita técnica. Se você vai bem na cyclocross, tem mais facilidade na mountain bike”, explica.

Treino duplo
Uma das técnicas citadas por Marconi Ribeiro é a que ele chama de “empurra bike”. Nas trilhas, muitas vezes não é possível passar com a bicicleta; portanto, os competidores colocam o quadro no ombro e, em vez de pedalar, correm. “É tudo muito rápido. O ciclista vê o obstáculo e desce rapidamente da bike, colocando-a no ombro. Quando ele passa dessa parte correndo, coloca a bicicleta no chão e já sai pedalando. É quase como um duatlo, então muitos atletas também treinam corrida, além do ciclismo”, explica Gabriel Verçosa, ciclista e gerente em uma loja especilizada no Sudoeste.

A venda do modelo ainda é rara. Em dois anos, a loja de Gabriel vendeu apenas 10 bicicletas. O preço varia de acordo com o nível: de R$ 7,5 mil a R$ 16 mil. Entre os interessados estão pessoas que usam o item como meio de transporte. “É uma bicicleta que vai bem tanto na trilha como no asfalto. Ela é leve, mas é bem resistente. Você pode usá-la na posição aerodinâmica, com o corpo bem inclinado, mas também pode levantar o tronco e ter mais conforto. É muito versátil”, comenta Gabriel Verçosa.

Em crescimento
Provas da modalidade ainda são embrionárias no país. Algumas já foram realizadas na Região Sul, como no Paraná e em Santa Catarina. No Distrito Federal, os usuários da bicicleta “híbrida” planejam realizar uma prova no ano que vem, mas nada fechado. Enquanto isso, os candangos usam a magrela nas trilhas para lazer ou treinamento.